Sala dos Ancestrais

bethmoon-topoAqui apresentamos um pouco da história de nossos Grandes Senhores e Senhoras do Candomblé, conhecidos e anônimos, de todas as nações.

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Bamboxê Obitikô

* Artigo originalmente publicado em:
CASTILLO, L .E. In: Jesus, A.J.S. & Junior, V.C.S. (orgs.). Minha Vida é Orixá. Salvador: Ifá Editora, 2011. p. 55-81.

Bamboxê Obitikô foi um dos homens mais destacados da história das religiões afro-brasileiras. Segundo a memória coletiva da Casa Branca, Bamboxê, também conhecido como Rodolfo Manoel Martins de Andrade, era babalaô e devoto de Xangô. Realizou ritos essenciais no estabelecimento do espaço físico do terreiro, contribuições sinalizadas hoje durante o padê, um ritual semiprivado realizado antes de todas as cerimônias públicas, em homenagem ao orixá Exu e aos homens mortais importantes nos primeiros tempos do terreiro. Nesse ritual, Bamboxê é saudado como Essa Obitikô.

Apesar de sua importância inegável no campo ritual, até agora a vida de Bamboxê Obitikô fora desse âmbito permanecia um mistério. 0 texto atual apresenta dados históricos obtidos através de pesquisa documental, cruzando-os com informações embutidas em narrativas orais. 0 resultado é um esboço preliminar da vida desse personagem singular, com os primeiros detalhes concretos sobre seu tempo no cativeiro, vida familiar e viagens a outras cidades do Brasil e a África. A pesquisa também trouxe informações preciosas sobre sua amizade com Joaquim Vieira da Silva, Obá Sanyá, outra ilustre figura masculina da rede religiosa da Casa Branca durante o século XIX. Através desses dois homens, a Casa Branca se inseria numa rede sociorreligiosa que ligava Salvador a Lagos e também se estendia até as províncias de Pernambuco e do Rio de Janeiro.

Primeiros anos no Brasil

Em uma das versões da memória oral sobre a fundação do terreiro, afirma-se que o babalaô chegou à Bahia como pessoa livre com Marcelina da Silva quando esta retornou de uma viagem à África. Uma variação da história sustenta que ele teria chegado como escravo, mas que foi Marcelina que pagou sua carta de alforria. Ainda outra, juntando elementos das duas primeiras, diz que Bamboxê foi escravizado, que sua senhora foi Marcelina e que o babalaô chegou da África com ela nessa condição. Apesar das diferenças, percebe-se que em todas as versões, Marcelina da Silva é representada como uma presença importante na vida de Bamboxê Obitikô, desde os primeiros tempos deste na Bahia.

A documentação histórica confirma que Bamboxê foi escravizado no Brasil, mas revela que Marcelina não foi sua senhora. 0 babalaô serviu a um português, Manoel Martins de Andrade, e foi batizado com o nome Rodolfo, provavelmente nos anos 1840. Andrade tinha uma pequena fazenda com árvores frutíferas na vila litorânea de Jaguaripe e possuía também propriedades na capital – um grande sobrado na rua do Tijolo, número 18, onde morava com sua família, e duas casas térreas na vizinhança, ambas na rua do Saboeiro. Quando morreu, em 1871, deixou dez escravos. Encontrei evidência de pelo menos treze outros que teve entre 1852 e 1861, entre eles dois Rodolfos, dos quais um foi o nosso Bamboxê Obitíkô.

A documentação indica que Manoel Martins de Andrade era um senhor intransigente e quando contrariado as consequências podiam ser brutais. Em setembro de 1852, o português recorreu à polícia para disciplinar Luis nagô, um jovem escravo com 24 anos de idade.

Num pedido dirigido ao chefe de polícia, o senhor explicou que seu escravo era desobediente e solicitou permissão para puni-lo com 400 açoites, sem relatar os pormenores do caso. A severidade do castigo foi excepcional, semelhante às punições sofridas por alguns insurgentes da revolta dos males. A polícia a considerou exagerada e autorizou “apenas” 150 chibatadas.

Não encontrei outras referências às relações de Manoel Martins de Andrade com seus cativos, mas com certeza a violência do castigo de Luis – bem como outras punições que não chegaram ao conhecimento da polícia – deve ter ficado gravada na memória de todos os cativos que viviam sob o domínio do português. Alguns anos depois desse incidente, Bamboxê conseguiu sua liberdade. Em 22 de maio de 1857, Andrade assinou uma carta conferindo a alforria “ao meu escravo Rodolfo, africano, pelo preço de 1:750$000 réis, que d’ele recebi ao assinar d’esta”. O preço foi alto, porque Bamboxê, com cerca de 40 anos de idade, ainda era relativamente jovem, talvez mestre de algum ofício rentável. Preocupado que seu senhor renegasse o acordo, Bamboxê não perdeu tempo. No dia seguinte, registrou a carta em um tabelião.

Apesar de Bamboxê não ter sido escravo de Marcelina, é ainda possível que tivesse chegado com ela da África no mesmo navio, como as narrativas orais sustentam. Nesse caso, ela teria sido uma passageira livre e ele um dos presos no porão. Os navios negreiros também transportavam negros livres e libertos que viajavam por vontade própria. Porém, é pouco provável que Marcelina o trouxesse nessa condição. Ao longo de sua vida, foi senhora de mais de trinta escravos, mas não encontrei documentos que sugerissem que ela se envolvia no comércio negreiro. Entretanto, independente da veracidade das memórias orais de que Bamboxê chegou à Bahia no mesmo navio de Marcelina, é evidente que ela realmente estava envolvida de alguma forma na sua manumissão. No mesmo dia em que Bamboxê foi a um cartório para registrar sua carta de liberdade, Marcelina da Silva foi a outro tabelião, para registrar a venda de um escravo africano. O comprador era a Manoel Martins de Andrade, e o preço foi 850$000 réis – a metade do valor que Bamboxê tinha acabado de pagar por sua liberdade. O texto da escritura da venda não menciona a relação de Marcelina com o liberto Rodolfo, mas, considerando a data e o preço, parece claro que ela pretendia compensar o português pela perda dos serviços de Bamboxê, fornecendo-lhe outro cativo. Andrade saiu muito bem do negócio: um novo escravo e 900$000 réis a mais no bolso.

Provavelmente, a intervenção da ialorixá deixou Bamboxê com uma dívida ética e financeira, que, talvez, o obrigasse a servi-la durante um tempo para compensar o favor. Segundo o sistema iorubá de iwofa, quando alguém tomava um empréstimo, o devedor, ou um substituto arranjado por ele, tinha que servir ao credor por um determinado número de horas a cada semana. Não era escravidão: o serviço era limitado ao valor dos juros e acabava quando o pagamento da dívida terminava. Mas envolvia trabalho obrigatório realizado por alguém de uma posição socioeconômica inferior para outra pessoa mais privilegiada. Diante desse costume, a versão da tradição oral que mantém que Bamboxê era escravo de Marcelina pode ser interpretada como uma lembrança alegórica do envolvimento da ialorixá na alforria dele.

Uma vez liberto, Bamboxê acrescentou o nome completo do seu ex-senhor ao seu nome de batismo, tornando-se Rodolfo Manoel Martins de Andrade. Em pouquíssimo tempo passou a ser senhor de escravos. Em setembro de 1858, apenas um ano e meio após sua manumissão, comprou Pedro, um africano com cerca de 50 anos de idade. Provavelmente devido à idade do escravo, o preço foi baixo: 300$000 réis. Alguns anos depois, em 1864, Bamboxê comprou Cypriano, também africano e da mesma faixa etária, pelo mesmo preço. É possível que, nessas compras de mão-de-obra “de segunda”, Bamboxê estivesse seguindo uma lógica que remetia ao universo religioso-cultural iorubá. Um dos versos de Ifá relembra que o primeiro cativo comprado pelo orixá Oxalá era aleijado. Inicialmente Oxalá se arrependeu dessa compra, mas acabou mudando de ideia, pois o escravo lhe trouxe riqueza e boa sorte.

Apenas dois anos depois de comprar Cypriano, Bamboxê o vendeu, talvez precisando de dinheiro líquido, pois tinha acabado de comprar uma casa. Era localizada na estrada de Pau Miúdo, uma pequena vila da periferia semirrural da freguesia de Santo Antônio além do Carmo. A escritura, datada de 28 de abril de 1866, observa que Bamboxê já residia na freguesia, e outros documentos sugerem que tinha fixado residência por lá desde 1861. A casa era humilde, com paredes de taipa, coberta por telhas. Tinha dois quartos, cozinha, sala e quintal. O terreno, foreiro à Quinta dos Lázaros, um dos hospitais da cidade, tinha nove braças de frente e trinta de fundo. A escritura nos informa que o comprador era pai: a propriedade foi registrada no nome de sua filha Júlia, de menor, “com a condição, porém, de poder ele comprador usufruir a dita casa durante sua vida”. Esta Júlia, com certeza, era a filha conhecida na memória oral por Maria Júlia, que na sua vida adulta teria um filho, Felisberto, que também se tornará babalaô. A primeira vista, o fato de colocar a casa no nome dela parece indicar um carinho paternal especial. Mas há de lembrar também que, para africanos libertos que tinham a condição econômica de adquirir propriedade, era também uma maneira de contornar uma lei provincial que proibia africanos de comprar imóveis, implementada pelo governo provincial após a insurreição de escravos de 1835.

Depois deste documento, há uma lacuna de seis anos na documentação sobre o babalaô. 0 próximo registro que encontrei em seu nome é de 16 de março de 1872, quando ele pediu um passaporte para viajar a Pernambuco. Naquela época, passaportes eram necessários não apenas para viagens para fora do país, mas também para ir a outras províncias. Para um negro obter permissão para viajar, tinha que comprovar primeiro que não era escravo. No caso de negros nascidos livres, a certidão de batismo servia, mas no caso do ex-escravo, exigia-se a carta de alforria, original ou cópia autenticada por um tabelião. Para viagens subsequentes, bastava o passaporte vencido. Ao pedido de passaporte de Bamboxê está anexada a carta de alforria original: uma folha de papel desgastada, enrugada e um pouco suja, de quinze anos dobrada no bolso, sinalizando que era sua primeira saída da Bahia como liberto.

Obá Sanyá, “amigo inseparável” de Bamboxê

No dia 18 de março de 1872, a polícia recebeu outro pedido de passaporte para Pernambuco, de um africano liberto chamado Joaquim Vieira da Silva. Lembrado pela tradição oral como amigo inseparável de Bamboxê, “Tio” Joaquim foi também importante na história da Casa Branca. Outro devoto de Xangô, seu nome ritual era Obá Sanyá, o que significa “o rei se vinga de sofrimento”. Hoje, é saudado durante a cerimônia do padê, pelo nome Essa Oburô. Conta-se que Tio Joaquim tinha um terreiro, próximo do então povoado do Rio Vermelho.

Na carta de liberdade de Joaquim, consta que era marinheiro. Seu senhor, Antônio Vieira da Silva, era um imigrante português que acumulou vasta fortuna durante o período ilegal do tráfico transa-tlântico de escravos. Quando não estava no alto-mar ou em um dos portos da Costa da África negociando a compra de cativos, Antônio Vieira da Silva morava em Salvador, freguesia de São Pedro, num luxuoso sobrado de dois andares localizado na rua Portão da Piedade. Quando morreu, em agosto de 1866, Antônio Vieira da Silva era proprietário de cerca de cinqüenta escravos, mais de trinta imóveis e 200 contos em dinheiro e letras. No seu testamento, Silva concedeu liberdade a mais de doze escravos, entre eles Joaquim e vários outros marinheiros. Nessa altura, Joaquim tinha 40 anos de idade.

Não está claro por quanto tempo Joaquim tinha sido cativo, mas parece provável que tenha sido escravizado na década de 1840, talvez vendido ao seu senhor por um dos atravessadores em Ouidah de quem Silva era cliente, como Antônio e Ignácio Félix de Souza, filhos do poderoso mercador de escravos Francisco Félix de Souza, o “Chachá”. Diante do envolvimento do seu senhor no tráfico em seres humanos, podemos supor que Joaquim aprendeu o ofício de marinheiro em navios negreiros.

Embora a importação de escravos africanos para o Brasil tenha terminado efetivamente no final de 1850, a documentação sugere que o senhor de Joaquim demorou a fazer a transição para o comércio lícito. Com o fim do tráfico para o Brasil, ainda restava o mercado cubano. Numa carta ao seu sócio escrita em Ouidah em janeiro de 1854, Silva comentava que “nesta data já V.M. deve estar embolsado do dinheiro da Havana, “porque alguns aqui já o seu receberam”, sem dúvida se referindo aos negócios cubanos de outros traficantes estabelecidos naquele porto. Contudo, os rendimentos do tráfico negreiro eram cada vez mais difíceis. No início dos anos de 1860 Antônio Vieira da Silva passou a trabalhar no tráfico interprovincial, levando escravos e outras mercadorias da Bahia para serem vendidos no sul. Infelizmente, apesar da ampla documentação sobre as atividades marítimas de Antônio Vieira da Silva, não constam os nomes dos tripulantes dos seus navios, o que nos deixa sem saber como o marinheiro Joaquim nagô figurava nos negócios de seu senhor. Porém, diante das viagens aos mais diversos portos do mundo Atlântico parece provável que Joaquim tenha ido a alguns desses lugares, inclusive ao continente do seu nascimento. Se não como tripulante nas embarcações do próprio Antônio Vieira da Silva, quiçá alugado ao mestre de outro navio.

Como já vimos a tradição oral do Candomblé diz que Joaquim e Bamboxê eram grandes amigos. Exatamente quando se conheceram não está claro, mas, em novembro de 1866, “Joaquim Antônio Vieira da Silva” aparece num livro de batismos da freguesia de Santo Antônio, como padrinho de uma criança recém-nascida. A madrinha, Maria do Carmo, morava no Pau Miúdo, perto de onde morava também Bamboxê. Podemos especular, então, que se Joaquim não conhecia Bamboxê antes deste período, poderiam ter-se conhecido por aí.

Na tradição oral, Bamboxê Obitikô e Joaquim Vieira da Silva são lembrados como atores importantes nos ritos de abertura do Ilê Iyá Nassô, antigamente conhecido como o Engenho Velho e hoje por outro apelido, a Casa Branca. Essa memória é útil para tentar estabelecer uma parte ainda elusiva da história do terreiro: a data da sua instalação no local atual, no Engenho Velho da Federação. Na época de Iyá Nassô, fundadora do terreiro, a comunidade religiosa funcionava no centro da cidade de Salvador, mas esse período, que talvez tenha começado no início dos anos 1820, provavelmente se encerrou em 1837, quando a fundadora juntou sua família, escravos e agregados – entre eles Marcelina da Silva – e viajou para a África. Ainda segundo a tradição oral, o terreiro se mudou algumas vezes antes de instalar-se no Engenho Velho.

É pouco provável que Bamboxê realizasse os ritos da inauguração do espaço sagrado nos tempos de Iyá Nassô, pois naquele período era criança ainda. Joaquim, por sua parte, nem sequer tinha nascido. Assim, deduzimos que a participação dos dois se deu posteriormente, durante os ritos realizados depois da mudança para o Engenho Velho, o que deve ter ocorrido entre a volta de Marcelina à Bahia em 1839 e sua morte em 1885. Infelizmente, em toda a extensa documentação histórica encontrada sobre Marcelina da Silva, não consta nenhuma propriedade no Engenho Velho. A primeira evidência da presença do terreiro no novo local vem apenas em 1892, dois anos após a morte de Maria Júlia Figueiredo, sucessora de Marcelina. Em junho daquele ano, a propriedade foi arrematada para pagar dívidas tributárias. Nessa altura já possuía edificações bem estruturadas.

Uma grande casa de taipa, coberta de telha, situada no lugar denominado Engenho Velho, estrada do Rio Vermelho, freguesia de Brotas, com 150 palmos de frente, 2 salas, 6 quartos, varanda ao lado, cozinha e mais cômodo que serve de dispensa; uma pequena casa de taipa, coberta de telha, da qual é rendeira Venância Maria dos Anjos, além desta ainda existe uma pequena casa de palha que está ao serviço da casa grande, todas edificadas em terreno arrendado e de propriedade do Dr. José Carneiro de Campos.

A “grande casa de taipa” é obviamente o barracão, enquanto a estrutura menor “a serviço da casa grande” talvez seja uma casa de santo. De qualquer forma, a presença de tanta infraestrutura sugere que a comunidade religiosa estivesse funcionando no local há alguns anos. Mas quantos?

Se Bamboxê participou dos preceitos para inaugurar o novo espaço no Engenho Velho, parece provável que tenha acontecido em algum momento depois da sua liberdade em 1857, quando teria mais autonomia para permanecer durante ritos prolongados. Lembremos também que o envolvimento de Marcelina da Silva na alforria de Bamboxê pode tê-lo deixado com uma dívida com ela. Se o babalaô a serviu como iwofa, a sua assessoria nos ritos para estabelecer o novo local do terreiro poderia ter sido um dos termos do acordo entre os dois. Por outro lado, Joaquim Vieira da Silva também é lembrado como participante na fundação do terreiro. Já que era marinheiro durante o cativeiro, deve ter passado muito tempo em viagens no alto-mar, o que teria dificultado seu envolvimento em rituais religiosas em Salvador. Sua alforria, obtida em 1866 por verba testamental do seu senhor, estipulou que servisse aos herdeiros durante três anos, e a carta de liberdade de Joaquim só foi emitida em setembro de 1870.

Se aceitarmos que a mudança provavelmente aconteceu depois de setembro de 1870, quando os dois já eram libertos, poderíamos ainda arriscar que teria ocorrido antes de março de 1872, quando foram juntos a Pernambuco. Porque essa viagem marcou, para Joaquim, o início de uma longa estada naquela província. Na vida do babalaô foi o começo de um período de viagens itinerantes que duraria mais de vinte e cinco anos, no qual atravessou o Atlântico várias vezes, como o fizeram outros parentes seus, tema da próxima seção.

Uma rede transatlântica

Depois da viagem a Pernambuco, em 1872, a próxima notícia de Bamboxê Obitikô e Joaquim Vieira da Silva vem de meados de 1873. Nos registros de passaportes emitidos na Bahia consta que, no dia 10 de junho, Rodolfo Manoel Martins de Andrade, “preto liberto com 50 anos de idade, de nação mina”, pediu permissão para viajar à Costa da África, levando na sua companhia seus três filhos: Júlia, que tinha 17 anos, Lucrécia, com 13, e o pequeno Theóphilo, que tinha apenas sete. Essa viagem, provavelmente, foi a primeira volta de Bamboxê ao continente do seu nascimento. Durante a travessia marítima, ele também seria responsável por mais dois crioulos livres, menores de idade: Cosme, com 13 anos, e Rosalina, que, aos 18 anos, legalmente não tinha atingido ainda a maioridade. Os dois adolescentes tinham feito uma viagem de dois dias, de Recife, para se integrar ao grupo, provavelmente juntos com Feliciana Maria da Conceição, uma crioula de 24 anos que também chegara de Pernambuco para ir à África. Sem dúvida, a presença desses três pernambucanos no grupo estava relacionada à viagem recente de Bamboxê àquela província.

O grupo teve que esperar dois meses para viajar. No dia 7 de agosto, Bamboxê, seus filhos e os pernambucanos deixaram o Brasil a bordo do brigue Bemvindo. Dez dias depois, Joaquim Vieira da Silva viajou para Recife de novo, talvez levando as notícias de que a viagem transatlântica do grupo já tinha começado. Seja qual for o motivo de sua ida, Joaquim permaneceu na capital pernambucana durante muitos anos, como veremos mais adiante.

Oito meses antes, outro africano liberto, Eduardo Américo de Souza, também tinha deixado a Bahia para ir à África. Eduardo Américo também figura na memória oral, pelo seu casamento com Júlia, filha de Bamboxê, com quem teve um filho, o já aludido babalâo Felisberto Sowzer. Na sua viagem, Eduardo Américo também levou algumas crianças para Lagos. Uma foi Sophia, uma adolescente de 15 anos, cuja mãe, Esperança Ritta Pereira, era africana liberta e morava na freguesia da Rua do Passo. Outra integrante do grupo de Eduardo Américo foi um menina crioula de doze anos de idade, chamada Querina. Diferente de Sophia, que nasceu livre, Querina tinha passado toda sua vida até então no cativeiro. Quando Querina nasceu, sua mãe, a africana liberta Justa, era escrava de Marcelina da Silva, sucessora de Iyá Nassô na liderança da Casa Branca. Em maio de 1872, Justa, já liberta, pagou 900$000 réis a sua senhora pela liberdade de Querina, provavelmente já pensando na viagem à África então sendo organizado por Bamboxê e Eduardo Américo. Para poder enviar a menina com o grupo, tinha que resgatá-la primeiro do cativeiro. Pelos vínculos de Justa e sua filha com a Casa Branca, percebe-se que Eduardo Américo provavelmente também frequentava a comunidade religiosa.

Como Bamboxê, Eduardo foi descrito como “mina” no seu passaporte. No cativeiro, serviu ao advogado Américo de Souza Gomes, que residia na freguesia de Santa Anna e ocupou vários cargos importantes no governo provincial. Não é claro quando Eduardo se tornou escravo desse senhor, mas comprou sua liberdade em 15 de dezembro de 1860, pagando 1:550$000 réis. Depois disso, os próximos registros em seu nome são de 1865, quando Eduardo também passou a ser proprietário de escravos, comprando duas mulheres africanas. Três anos depois, em abril de 1868, Eduardo foi um dos vinte africanos e crioulos que pediram passaportes para a Costa da África. Não há indícios de que embarcação o grupo pretendia pegar, mas logo depois de receber o passaporte, Eduardo vendeu uma de suas escravas, provavelmente para custear as despesas da viagem. Ele tinha então 35 anos.

Dessa vez, Eduardo Américo permaneceu na África por quatro anos, provavelmente em Lagos, que tinha sido ocupada pelos ingleses em dezembro de 1851, posteriormente atraindo cada vez mais africanos libertos do Brasil. Quando Eduardo voltou à Bahia, em 19 de julho de 1872, já portava um passaporte inglês. Poucas semanas depois, viajou para Pernambuco aonde, como vimos, Bamboxê e Joaquim tinham ido há quatro meses. Quando Eduardo retornou novamente à Bahia, em 12 de setembro do mesmo ano, trouxe três crianças que também pretendia levar a Lagos: dois meninos chamados Carlos, um de oito anos de idade e o outro de dez, e uma menina, Francisca, também com dez anos.

Obviamente, as idas paralelas de Bamboxê e seu futuro genro a África, cada um levando um grupo de crianças, algumas das quais eram pernambucanas, eram ligadas. Seguramente, durante os quatro anos que já tinha passado em Lagos, Eduardo adquiriu contatos que foram úteis na sua volta posterior com as crianças. Esses contatos possivelmente forneceram hospedagem e outras formas de assistência aos recém-chegados. Nesse aspecto, Bamboxê talvez dependesse dele, pois o babalaô tinha passado longos anos no Brasil sem retorno ao continente negro. Mas Bamboxê, por sua parte, deve ter trazido à parceria contatos da sua rede sócio religiosa no Brasil. Quando Bamboxê e Joaquim viajaram a Pernambuco, em março de 1872, Eduardo ainda estava na África. Não é claro se a ida de Eduardo àquela província, alguns meses depois, foi ao encontro dos outros dois, mas, com certeza, Eduardo dependia do trabalho de organização e divulgação já feito no Recife por Bamboxê e Joaquim. Também não é claro como estes dois se comunicavam com Eduardo antes de sua volta da África. Provavelmente, recorreram a outros viajantes do seu círculo social para levar mensagens verbais ou cartas redigidas por outrem.

De qualquer forma, a superação das dificuldades impostas pela separação geográfica requereu muita articulação, o que sugere que os três homens participavam de uma rede de solidariedade sócio religiosa baseada na Bahia, que ajudava libertos em outras partes do Brasil a retomar contato com a África, para voltar a viver por lá e, talvez, até reconstruir laços de família e amizade despedaçados pela escravidão. Já que Bamboxê, Joaquim e, provavelmente, Eduardo eram ligados à Casa Branca, podemos supor que Marcelina da Silva, que quarenta anos antes também tinha feito uma viagem ao continente africano, teria consciência dessa rede e oferecia seu apoio, tácito ou ativo. Na sua ida a África em 1837, Marcelina também levou sua filha, Maria Magdalena, então com cerca de oito anos de idade. A menina permaneceu na África por mais vinte anos, provavelmente com Iyá Nassô.

Nos anos que se seguiram a ocupação de Lagos pelos britânicos, azeite de dendê, então muito usado como lubrificante industrial e combustível, substituiu escravos como o mais importante produto de exportação da cidade. A subsequente prosperidade econômica atraiu libertos do Brasil, que foram acolhidos pelo governo colonial. 53 Alguns, como Eduardo Américo de Souza, tinham conquistado a liberdade há relativamente pouco tempo quando atravessaram o mar rumo a Onim, como a cidade era então conhecida no Brasil. Outros tinham ficado na Bahia, como libertos por décadas, tomando a decisão de voltar só alguns anos após a instalação dos ingleses. Os imigrantes foram aproveitar as oportunidades de trabalho que estavam surgindo naquela cidade para pedreiros, marceneiros, sapateiros, etc. As famílias que enviaram seus filhos masculinos, com Eduardo Américo e Bamboxê, no início dos anos de 1870, provavelmente queriam que se tornassem aprendizes de um desses ofícios lucrativos. Talvez também pensassem nos terrenos sendo distribuídos a imigrantes através de um programa iniciado pelo obá Dosomu. Havia também a possibilidade de se matricular numa escola, como no caso do conhecido babalaô Martiniano do Bonfim, levado a Lagos por seu pai, Eliseu do Bonfim, em 1875. Martiniano estudou numa escola missionária até a quarta série, tornando-se letrado em iorubá e inglês. Ficou em Lagos por onze anos, e durante esse período trabalhou como pedreiro, inclusive na construção da catedral católica da cidade, a Holy Cross. Desde sua infância, Martiniano era vinculado à Casa Branca, através do seu pai, que era compadre de Marcelina da Silva e amigo de Bamboxê Obitikô, e parece provável que no seu tempo em Lagos, Martiniano estava em contato com o babalaô e seus filhos. Possivelmente, fosse com Bamboxê que Martiniano foi iniciado no culto de lfá.

Uma vez em Lagos, Bamboxê Obitikô, Eduardo Américo de Souza e seus grupos se integraram na ainda pequena comunidade de imigrantes brasileiros, ou aguda, como são conhecidos em iorubá, que já incluía cerca de mil pessoas, numa cidade cuja população total não ultrapassava de 25,000. Como bem aponta o antropólogo Milton Guran, a construção da identidade étnica dos aguda envolveu uma complexa mistura de elementos culturais africanos e brasileiros, com o catolicismo formando uma pedra fundamental. Nesse sentido, Bamboxê e Eduardo, apesar de permanecerem culturalmente iorubá na sua devoção ao culto aos orixás, também mantiveram um envolvimento seletivo com o catolicismo. Após sua chegada em Lagos, ambos tiveram vários filhos ao longo dos anos e os levavam para batizar. Contudo, na constituição de suas famílias, seguiram as normas da cultura iorubá. Seus filhos foram havidos de diversas mulheres, não de relações subsequentes, mas concorrentes. Não há dúvida: eram polígamos.

Nesse período, havia certa precariedade nas condições básicas do cotidiano de Lagos. Guerras civis tinham se espalhado pelo interior do território iorubá, o que tornava perigoso viajar na região. Mesmo dentro da cidade, a vida também tinha seus perigos. Incêndios era um problema recorrente, devido ao uso de palha nos tetos das casas. Em 1873, no intervalo entre as chegadas dos grupos de Eduardo e de Bamboxê, um grande incêndio destruiu quinhentas casas no bairro brasileiro. Esse cenário se repetiu várias vezes até o final do século. Epidemias de gripe, cólera, febre amarela e malária também eram comuns. Em 1895, a preocupação sobre o número de pessoas que morriam em epidemias motivou uma grande reunião, envolvendo o príncipe iorubá e todos os chefes e mais velhos locais. Entre as possíveis causas da epidemia, consideraram que a feitiçaria fosse a mais provável, e a reunião terminou com uma ordem aos chefes dos adeptos de “Shopono” (Obaluaiyê) que identificassem e punissem os responsáveis entre os devotos desse orixá.

Por outro lado, apesar desses perigos, também havia vantagens em termos da liberdade de religião. Os cultos aos orixás ainda predominavam na colônia, apesar dos esforços constantes de grupos missionários, e podia cultuar as divindades tradicionais publicamente. Em abril de 1875, por exemplo, realizou-se os ritos fúnebres de axexê, em homenagem aos 28 anos da morte da mãe do rei Dosomu, com uma grande procissão de 400 egunguns (Babá Egun) que circularam publicamente pelas ruas.

Num texto pioneiro sobre os retornados do Brasil em Lagos durante o século XIX, A.B. Laotan faz uma relação dos antigos moradores, na qual o babalaô aparece identificado como “Papae Bamgbósé No. 2 (Senhor Martins)”. Laotan assinala que, nesse período, havia outro imigrante brasileiro também chamado Bamgbósé. Nos anos 1850, quando o nosso Bamboxê Obitikô era ainda escravo, o outro já residia em Lagos, mas foi expulso pelos ingleses, acusado de envolver-se numa conspiração contra o poder colonial. Alguns anos depois, foi permitido retornar. Tudo indica que foi esse primeiro Bamgbósé, que Laotan chama de “Papae Bamgbósé No. 1”, que deu nome a rua Bamgbósé, pois a rua foi batizada por volta de 1868, cinco anos antes do retorno do babalaô Bamboxê Obitikô à África. Uma vez em Lagos, o babalaô, seja por coincidência ou por desígnio, fixou residência naquela rua, hoje em dia uma das vias principais do bairro brasileiro. Sua casa existe até hoje e lá ainda moram descendentes seus. Os orixás cultuados pela família são Exu, Xangô, Ogum e Oxum, e também cultua-se os egunguns dos seus ancestrais, entre eles Labo Ajankoro Dugbe Dugbe, o patriarca da família que veio do Brasil – ou seja, Bamboxê Obitikô.

Apenas três meses depois de sua chegada em Lagos, Bamboxê Obitikô se tornou pai de novo. A menina, Justina Maria, foi a primeira de sete filhos nascidos em solo africano ao longo de duas décadas (Tabela 1). A vida dela começou no Brasil e a menina atravessou o Atlântico ainda no ventre da mãe. Nos registros católicos do seu batismo, realizldo em 1 de dezembro de 1873, o nome da mãe aparece como “Firmina” da Conceição. Desconfio, porém, que o escrivão tenha erra Io e o prenome da mãe, na verdade, era Feliciana – a crioula liberta que veio de Pernambuco para viajar a África com Bamboxê. Se for o caso, quando ela foi a policia baiana com Bamboxê em junho daquele ano, para solicitar seu passaporte à África, já tinha cerca de 4 meses de gravidez. Bamboxê também casou com a outra pernambucana do grupo que atravessou o mar no seu grupo, Rosalina. No final de 1875, nasceu Andreas, filho do babalaô com ela. Quando foi batizado, em janeiro de 1876, o padrinho foi Eduardo Américo de Souza. No mesmo dia, Bamboxê batizou outro filho, Balbino, nascido há apenas quinze dias, havido com ainda outra mulher, Philomena da Conceição.

Os filhos brasileiros do babalaô também constituíram famílias em Lagos. Como foi assinalado acima, a mais velha, Maria Júlia, casou com Eduardo Américo de Souza. Aparentemente, o matrimônio foi realizado pelos ritos iorubás, pois os nomes de Maria Júlia e seu marido não constam nos registros de casamentos católicos realizados nessa época. Podemos supor, entretanto, que a união data 1876, pois seu filho, Felisberto, nasceu em julho de 1877. Foi batizado aos oito meses de idade, em 10 de fevereiro de 1878, com Antônio Alexander e Francisca Antonia de Castro como padrinhos. A julgar pelos nomes lusófonos, faziam parte da comunidade de imigrantes “brasileiros” em Lagos. Segundo a tradição oral, Júlia teve outro filho com Eduardo, mas não encontrei registro. Contudo, Eduardo Américo de Souza teve mais doze filhos, havidos de cinco outras mulheres. Uma dessas outras esposas foi Querina, a ex-escrava de Marcelina da Silva que foi a Lagos com ele, no final de 1872. Provavelmente, as futuras co-esposas Maria Júlia e Querina se conheciam desde a infância, na casa da ialorixá da Casa Branca.

Tudo indica que Felisberto foi o primeiro neto do babalaô. Logo depois do batizado do menino, Bamboxê voltou à Bahia, deixando sua família estendida em Lagos. Chegou a Salvador em 26 de setembro de 1878, no patacho Garibaldi, junto com 21 outros passageiros, entre eles Eliseu do Bonfim, o pai de Martiniano do Bonfim, que tinha passado um tempo em Lagos por negócios. O babalaô ficou no Brasil por apenas um ano, embarcando de novo para Lagos no dia 16 de setembro de 1879, no patacho Hester.66 No início de 1882, nasceu outra filha sua em Lagos, Josepha, que foi batizada com menos de uma semana de nascida. Consta no registro que a mãe se chamava Orisabukola. A ausência de um nome católico indica que ela ainda não tinha passado pelos ritos de batismo católico, pelo qual deduzimos que, diferente das outras mulheres do babalaô, nunca morou no Brasil.

Depois do batismo de Josepha, Bamboxê some dos registros de ambos os lados do mar por alguns anos. Reencontramos ele no Brasil em 8 de fevereiro de 1886, quando seu nome consta numa lista de passageiros chegando a Salvador do Recife. Marcelina da Silva tinha falecido em junho de 1885, o que talvez motivasse a volta do babalaô à Bahia, deixando sua mulher Feliciana grávida em Lagos.68 Não é claro porque Bamboxê foi a Pernambuco antes de vir a Salvador. Talvez não encontrasse um navio que embarcasse para Bahia e foi a Pernambuco por isso, onde pegou outro, rumo à capital baiana. De qualquer maneira, pouco mais de um mês depois de sua chegada à Salvador, o babalaô viajou para o Rio de Janeiro, retornando à capital baiana apenas em janeiro do ano seguinte.

Uma terceira ida a Lagos, que durou vários anos, começou em 20 de outubro de 1887. 0 ano seguinte, quando a abolição da escravidão se concretizou no Brasil, em 13 de maio, Bamboxê estava ainda em Lagos e, provavelmente, participou das grandes festividades comemorativas que ocorreram no bairro brasileiro da cidade alguns meses depois, lembrado como o “Jubilee Àguda”. Em 1890, Bamboxê Obitikô tornou-se avô de novo, com o nascimento de João, primogênito do seu filho Theóphilo. O menino foi batizado em 27 de junho de 1890, com o avô paterno como padrinho. Em 1895, nasceu outro filho de Theóphilo e, no mesmo ano, o próprio Bamboxê, já com cerca de 70 anos de idade, também voltou a ser pai, com o nascimento de outra filha de Orisabukula, Rosa. “A menina era ainda muito pequena, de colo, quando seu pai voltou ao Brasil, pois em 13 de maio de 1896, Rodolpho Martins chegou em Salvador de novo, vindo, mais uma vez, via Recife. Certamente, durante sua estada em Pernambuco, reencontrou com seu velho amigo Obá Sanyá, que ainda morava lá, já casado e com filhos, como veremos.

Não encontrei registros de outras viagens de Bamboxê, mas aparentemente regressou a Lagos logo em seguida, pois em agosto de 1896, os correios de Lagos anunciaram a chegada de uma carta, talvez do Brasil, endereçada a “R. Manoel Martin”. Em 27 de junho de 1897, ainda em Lagos, Bamboxê Obitikô batizou sua última filha, Marcolina. No dia do batismo, faltavam dois dias para o décimo primeiro aniversário da morte de Marcelina da Silva, o que leva a pensar que a semelhança entre o nome de batismo da menina e o da falecida ialorixá não seja mera coincidência. 0 último registro que diz respeito ao babalaô vem alguns meses depois, quando outra carta endereçada a ele chegou aos correios de Lagos. Sabe-se, entretanto, que Bamboxê Obitikô ainda voltou ao Brasil, porque faleceu em Salvador; segundo a memória familiar, por volta de 1907. Seu túmulo se encontra na capela mor da Igreja do Rosário dos Pretos do Pelourinho, um dos poucos posteriores à virada do século XX, o que sinaliza o enorme prestígio que o velho babalaô tinha entre a população negra da Bahia.

Tudo indica que dois dos filhos que Bamboxê teve no Brasil, Lucrécia e Theóphilo, permaneceram em Lagos pelo resto de suas vidas. Mas Maria Júlia puxou seu pai e vivia entre os dois continentes. Não acompanhava o babalaô nas suas viagens marítimas, mas ao menos uma vez, fez-se acompanhar por sua co-esposa, Querina. Saíram de Lagos em fevereiro de 1896, no patacho Alliança, com mais de cinquenta passageiros, chegando ao porto da Bahia no dia 5 de abril. Querina levou duas das filhas que teve com Eduardo Américo: Joanna, já com dezenove anos, e Theodora, que tinha catorze. Maria Júlia, contudo, viajou sem seu filho Felisberto, talvez o tenha deixando em Lagos. Já tinha levado ele à Bahia numa viagem anterior, em 1886, quando mãe e filho chegaram no dia 20 de setembro, a bordo da escuna Zizi. Não é claro se a viagem de 1896 fosse a última vez que Maria Júlia Martins de Andrade atravessou o oceano, mas se sabe que, apesar de viver em Lagos por muitos anos, ela terminou sua vida na Bahia. Quando morreu, em 18 de fevereiro de 1925, já estava estabelecida em Salvador há décadas.

A neta caçula de Maria Júlia, D. Irene Sowzer Santos, hoje com noventa anos de idade, conta que seus avôs atravessaram o Atlântico muitas vezes, nem sempre junto. Os registros das viagens de Maria Júlia em 1886 e 1896 confirmam que ela viajava sem o marido, e há também indícios de uma viagem feita por Eduardo Américo à Bahia em 1881, sem suas esposas. Salvador foi sua base, mas passou a maior parte do tempo viajando a outras províncias: Rio de Janeiro em junho, Pernambuco em agosto e Maceió em outubro. Depois disso, há uma lacuna de quase um ano na documentação, até 20 de junho de 1882, quando o encontramos saindo da Bahia para Lagos, a bordo do palhabote Africano. Para Eduardo Américo, essa viagem de volta à África foi a terceira e, provavelmente, a última. Não há evidência que sugere outras idas ao Brasil; pelo contrário, entre 1883 e 1887, nasceram cinco filhos seus, todos em Lagos. Em algum momento, Eduardo passou a trabalhar a terra. Quando morreu, em Lagos, em 14 de março de 1897, foi descrito como agricultor, com uma roça na rua Tokonboh, próxima à rua Bangbose.

Viagens interprovinciais

As narrativas orais do povo-de-santo afirmam que Bamboxê Obitikô e Obá Sanyá viajavam ao Rio de Janeiro e a Pernambuco para assessorar comunidades religiosas na realização de rituais importantes. Conta-se que Bamboxê esteve envolvido na fundação do terreiro mais antigo de Recife, o Ilê Obagunté, ou o Sítio de Pai Adão, como é mais conhecido. A documentação apoia essas memórias, revelando que Bamboxê fez pelo menos quatro viagens a Pernambuco. Contudo, a tradição oral pernambucana coloca a fundação do terreiro em 1875, período em que Bamboxê estava na África. É bem possível que ele tenha participado de algum tipo de ritual preliminar durante sua visita a Recife em 1872, quando ele e Joaquim estavam organizando a primeira viagem a Lagos. Também pode ser que o babalaô estivesse presente em cerimônias que aconteceram durante suas viagens posteriores a essa cidade. Esta rede sócio religiosa entre Bahia e Pernambuco, da qual Bamboxê e Joaquim provavelmente foram os arquitetos principais, persistiu até as primeiras décadas do século XX, via Martiniano do Bonfim, que mantinha uma forte amizade com Pai Adão, o segundo líder do terreiro. Este, por sua vez, teria feito uma viagem a Lagos em algum momento também, mas não é claro quando.

Uma neta de Joaquim Vieira da Silva, Cantulina Pacheco, que faleceu em 2004 com 104 anos de idade, contava que seu avô “era de Pernambuco” – isto é, lá morava durante o cativeiro – e casou-se com “uma crioula de Recife”, vindo à Bahia bem depois, por causa de sua amizade com Bamboxê. Como já vimos, entretanto, o senhor de Joaquim dividia seu tempo entre a Bahia e Ouidah, e a primeira vez que Obá Sanyá saiu da Bahia como liberto foi em 1872.

Por outro lado, seu trabalho de marinheiro o levava aos diversos portos e é provável que a capital pernambucana fosse um deles. Seja como for, os registros eclesiásticos da Freguesia de São José do Recife revelam que Joaquim Vieira da Silva, africano liberto, se casou na mesma freguesia com a crioula Isadora Maria da Conceição em 31 de janeiro de 1880. Consta que os nubentes eram residentes da freguesia e que Isadora era natural da Bahia. Em pouco tempo, foram chegando os filhos: Felismina, em 1881, Francisco, em 1882, Alfredo, em 1884, e, depois de um intervalo de nove anos, Raymundo, nascido em 1893.

Quando Obá Sanyá se casou, já morava em Pernambuco há vários anos. Em agosto de 1877, fez parte de um grupo de africanos que enviaram um abaixo assinado ao jornal Diário de Pernambuco, reivindicando o direito de livremente praticar sua religião. Este grau de integração nas articulações políticas da comunidade africana local sugere que Joaquim já residia na cidade há tempo, e há indícios de que continuou lá por volta de duas décadas. Depois de sua saída da Bahia rumo a Recife em agosto de 1873, não encontrei mais sugestões de sua presença em Salvador até 1896, quando, no dia 14 de setembro, chegou a bordo do vapor Brazil. O navio começou sua viagem em Manaus, fazendo várias escalas ao longo do litoral, e Joaquim embarcou do Recife. Como já vimos, Cantulina sustentava que Bamboxê influenciou a decisão de Obá Sanyá de se mudar para a Bahia, e o babalaô esteve em Pernambuco na primeira metade de 1896, poucos meses antes da vinda de Joaquim a Salvador, o que certamente apoia essa memória.

Seja o que for, em 1900 encontramos evidência definitiva que Joaquim e sua esposa já moravam na capital baiana. Na escritura da compra de uma grande propriedade com sete casas e um terreno baldio no bairro de Nazaré, o casal foi descrito como “proprietários, domiciliados nesta capital”. As casas foram localizadas na Ladeira da Fonte das Pedras, não muito longe do distrito de Matatu, onde Bamboxê já morava. Em 1902, quando Joaquim morreu, entre seus bens também havia outra propriedade imóvel, uma pequena roça no bairro de Santa Cruz, próxima ao povoado do Rio Vermelho.

As várias versões da tradição oral concordam que, em 1886 Bamboxê Obitikô e Obá Sanyá participaram na fundação de um dos terreiros mais antigos do Rio de Janeiro, o Ilê Axé Opô Afonjá. Uma versão sustenta que também estava envolvida uma jovem adepta de Xangô chamada Eugenia Anna dos Santos, crioula de pais africanos e filha de santo de Bamboxê. Outra versão conta que apenas Bamboxê e Joaquim realizaram os rituais da fundação do templo, mas que Aninha, como era apelidada, veio ao Rio posteriormente e daí passou a liderar o terreiro. A documentação apoia a ideia de que Bamboxê estava presente durante a fundação do templo. O babalaô viajou pelo menos duas vezes ao Rio de Janeiro, passando dois meses em 1879 e quase um ano em 1886, como vimos acima. Mas Eugenia Anna dos Santos, que residia na Bahia, não aparece nas listas de passageiros dessas viagens, nem em qualquer outra durante a década de 1880, um ponto a favor da segunda versão da história. 87 Por outro lado, Joaquim Vieira da Silva, presente em ambas as versões, também não consta nas listas de passageiros de Salvador. Mas, como morava em Recife nessa altura, ele provavelmente teria começado sua viagem daquela cidade.

Qualquer que seja a verdade sobre a participação de Bamboxê Obitikô e Obá Sanyá na fundação do Ilê Axé Opô Afonjá no Rio de Janeiro, ambos são atores importantes nas narrativas orais de eventos que antecederam a fundação do terreiro do mesmo nome na Bahia. É dito que, depois da morte de Marcelina da Silva em 1885 surgiram divergências acirradas na Casa Branca sobre a escolha da próxima ialorixá, e que voltaram à cena em 1890, com a morte da sua sucessora, Maria Júlia Figueiredo. Segundo Edison Carneiro, essas rivalidades reapareceram novamente depois da morte de Ursulina. Nessa altura, segundo Carneiro, Joaquim teria sido candidato para a sucessão. Derrotado, Joaquim teria se afastado do Engenho Velho, formando sua própria comunidade religiosa – segundo alguns, no bairro de Santa Cruz, o que está de perfeito acordo com a localização da “roça” mencionada no inventário citado acima.

Porém, os documentos mostram que a fundação do terreiro de Obá Sanyá não podia ter acontecido depois da morte de Iyá Ursulina, porque ela faleceu por volta de 1920, mais de quinze anos depois de Joaquim. Se realmente houve algum racha envolvendo ele, só podia ter sido a que surgiu após a morte de Maria Júlia de Figueiredo em 1890. Seja o que for as várias versões concordam que Bamboxê e Aninha se aliaram ao terreiro de Joaquim em função das dissidências da Casa Branca. Obá Sanyá faleceu em 1902, seguido alguns anos depois por Bamboxê. Em 19 de janeiro de 1909, Aninha comprou um grande terreno no distrito rural de São Gonçalo, inaugurando um terreiro no ano seguinte. 0 nome escolhido foi Ilê Axé Opô Áfonjá, em homenagem à qualidade do seu Xangô, Afonjá.

Na formação de sua comunidade religiosa, certamente seus vínculos com Joaquim e Bamboxê ajudaram Aninha a atrair filhos de santo. No terreiro de Joaquim, Aninha já iniciava iaôs. Depois da morte de Bamboxê, uma das primeiras filhas de Aninha foi a bisneta de Marcelina da Silva, Maria Bibiana do Espírito Santo, hoje mais conhecida pelo apelido de Senhora. Senhora já tinha uma relação de amizade com a ialorixá há anos. Nascida em 1890, ficou órfã da mãe, Claudiana, neta de Marcelina da Silva, em 1900, e do pai, Félix José do Espírito Santo, dois anos depois. As duas tias maternas de Senhora faleceram em 1904 e 1906. Nesse período difícil, a futura fundadora do OpôAfonjá ajudou Senhora e seus quatro irmãos com a organização dos funerais católicos e, talvez, também dos ritos de axêxê. Quando, em 1938, Aninha veio a falecer, Senhora era iakeke-rê (mãe pequena) do Opô Afonjá da Bahia, tornando-se ialorixá do terreiro em 1942.

Além dos descendentes de Marcelina da Silva, outros membros da ICasa Branca também deixaram o terreiro para se integrar à nova comunidade liderada por Aninha, entre eles o babalaô Martiniano no Bonfim e um jovem ogã chamado Miguel Santana. Alguns anos mais adiante, em 1937, Cantulina Pacheco, a neta de Joaquim Vieira da Silva mencionada acima, seria uma das últimas iaôs de Aninha, iniciada poucos meses antes da morte da ialorixá.

Outro fator que contribuiu para o crescente prestígio do Ilê Axé Opô Afonjá nos seus primeiros anos foi o vínculo entre Aninha e a família Pimentel, da vila de Itaparica, localizada na ilha do mesmo nome na Baía de Todos os Santos. O patriarca da família, um liberto nagô consagrado a Xangô Aganju, Marcos Theodoro Pimentel, era adepto Ido culto iorubá aos ancestrais, no Brasil conhecido como Babá Egun. Marcos Theodoro tinha dois filhos, Marcos Cardoso Pimentel e José Theodoro Pimentel. Em maio de 1881, o jovem Marcos via ou a Lagos com seu pai, retornando em novembro do mesmo ano. É dito que trouxeram da África um assento de Babá Olukotun, legendário ancestral dos povos iorubás, cultuado até hoje nos terreiros de Babá Egun da Bahia. 0 velho Marcos morreu poucos anos depois. Na primeira década do século XX, após a morte de Bamboxê, José Theodoro Pimentel passou a assessorar Aninha, assumindo o cargo de Bale Xangô, chefe da casa de Xangô. Em 1921, sua filha carnal, Ondina Valéria Pimentel, foi iniciada por Aninha e, quatro décadas depois, em 1968, foi escolhida como sucessora de Mãe Senhora na liderança do terreiro.

Não é certo como Aninha conheceu essa família, que morava relativamente longe de Salvador. Parece provável, no entanto, que o velho Marcos e seu filho homônimo, durante sua estada em Lagos, tenham feito parte da rede sócio religiosa de devotos de Xangô no bairro brasileiro. Nesse âmbito, poderiam ter conhecido Bamboxê Obitikô e Martiniano do Bonfim, e, de volta ao Brasil, através deles, Aninha. De todo modo, é evidente que o apoio de famílias tão respeitadas por seu zelo religioso e também por seus vínculos com a África ajudou a impulsionar o terreiro de Aninha para uma posição de proeminência no universo religioso afro-brasileiro, lugar que ocupa até hoje em dia.

Conclusão

Os dados históricos apresentados neste texto, interpretados sob a luz de narrativas orais, fornecem informações preciosas sobre as trajetórias de vida de dois ilustres personagens masculinas na história das religiões afro-brasileiras. Tanto Bamboxê Obitikô quanto seu amigo “inseparável” Obá Sanyá eram atores importantes na organização de comunidades religiosas em diversos estados brasileiros e nas articulações desses terreiros entre si. Como Júlio Braga aponta, no seu texto incluído no presente volume, o grande interesse acadêmico nas contribuições das mulheres acabou obscurecendo a participação real dos homens no candomblé. Não é que as mulheres não tenham realizado papéis importantes, mas, como Braga e também J. Lorand Matory defendam, a cidade é longe de ser apenas delas, contrário à tese defendida por Ruth Landes no seu trabalho clássico sobre o candomblé da Bahia. Os novos dados sobre a vida de Bamboxê Obitikô aqui apresentados também demonstram claramente que os chamados “mitos” de viagens de volta à África são de dimensões míticas apenas no sentido de sua imensa importância para o imaginário afro-brasileiro, mas não são mitos no sentido de serem invenções. Alem de terem acontecido de verdade, as viagens foram muitos e frequentes, um dos grandes legados da herança africana no Brasil.

Fonte: Pilão de Prata

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